sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um desabafo grandão

Inspirada no post anteior, resolvi expor uma coisa que está martelando na minha cabeça há tempos e tem horas que essas coisas precisam ser postas pra fora. Desabafar é também uma forma de trabalhar o que nos incomoda, digerir melhor os sentimentos confusos que nos corroem e aqui estou.

Há, exatamente, seis anos, quatro meses e seis dias convivo com um homem maravilhoso, lindo e que faz de tudo pra me ver feliz. Eu tento retribuir a altura, é verdade e, às vezes, acho que ainda falto.

Acho que a gente se amou desde o primeiro dia em que nos conhecemos, porque esse primeiro dia é muito claro para nós até hoje.

O amor sempre existiu e por causa da força dele estamos juntos. Já passamos por tanta coisa que perco a conta de quantas vezes choramos abraçados. Uma vez ele me escreveu algo assim: “nosso amor é forte porque precisa ser conquistado a cada dia.” Por diversos motivos, nossa relação começou complicada e difícil. Não por nós, mas pelas circunstâncias em que ela estava envolvida.

As principais delas e as que sinto (ou pago o preço, sei lá) até hoje é o fato dele ser mais velho e estrangeiro. Meu marido é 25 anos mais velho do que eu. Se fizermos a conta, quando começamos a namorar, eu tinha 22 anos e ele 47. “Uma ninfetinha de 22 e um velho babão de 47, vejam só.” Não conta o fato de que, com 22, eu já era muito mais madura do que muita mulher de 30, mas vá lá. Além disso, ele era meu chefe.

Preciso dizer que isso não nos incomoda, não é um tabu entre nós e até brincamos com isso. São os outros que me incomodam, a visão dos outros sobre nós baseado em conceitos e concepções arcaicas, cheios de uma razão que não lhes cabe. Falo isso de pessoas importantes que fazem parte da minha vida, que não dão crédito, até hoje, a essa relação. E isso dói pra porra! (desculpem o palavrão, mas foi a expressão mais forte que consegui encontrar para expressar o que sinto)

Porque eu sabia que era estranha aos olhos dos outros, demorei muito tempo pra contar para os meus pais sobre nós. Nessa época, morava sozinha e pagava minhas contas. Então, podia ir e vir para onde e quando quisesse.

Quando contei, a reação de minha mãe foi achar que ela errou na minha educação. Meu pai ficou dois dias sem dormir. O horror da família!

O tempo passou, aprendi a conviver com o preconceito e fui levando. Só que não pensei que ele perdurasse tanto. Eu mudei, as pessoas não. É fato. Sou de uma cidade de 20 mil habitantes do interior da Bahia. O que posso esperar de pessoas que nunca saíram da sua zona de conforto e acreditam que o que eles não conhecem é impossível que seja real?

Uma tia me disse que estava com ele por dinheiro. Claro, toda brasileira que se envolve com um homem mais velho e estrangeiro está interessada no seu dinheiro. Claro também que todo “gringo” tem mais dinheiro do que qualquer brasileiro, principalmente sendo ele europeu.

Outro tio diz que é patologia. Que tive pai ausente e procuro um pai em Paulo. Como se Paulo fosse igual ao meu pai. Graças a Deus que não é.

Quando falo que já tenho X anos com ele, as pessoas fazem uma exclamação de espanto, "Tudo isso?", como se nao fosse possível durar tanto...

Meu pai levou cinco anos para admitir que o que há entre nós pode ser amor – vejam bem, pode. Antes disso era o quê? A filha interesseira. Ela quer dinheiro e ele, sexo. Um dinheiro que Paulo nunca teve.

Antes da minha viagem, a preocupação era que Paulo me levava embora, como parte da mala dele, uma pessoa sem vontade, que só seguia o que o marido definisse. Afinal, toda mulher casada (ou que vive em união estável, como eu) deve se comportar assim. Mais uma visão de interior. Mais uma frustração. Por que ninguém me perguntou se era isso que eu queria ou se estava feliz com a minha decisão?

E agora, quando anuncio que, enfim, posso casar “no papel” com o homem que eu amo, que está comigo há tanto tempo e que essa era uma expectativa de anos, o que dizem? “Eu não sabia que era isso que você queria.”

Porra! Eu finjo uma relação há seis anos. Meus olhos brilham quando eu olho para ele porque eu uso um colírio especial. Ele me faz sorrir toda manhã porque me faz cócegas. Sinto saudades dele porque ele paga as minhas contas. Por que a Globo não me contrata? Que puta bem paga eu sou. Se ainda fosse para conseguir o visto permanente... Porque, claro, com o tempo que estamos juntos, já tinha conseguido duas vezes o bendito visto.

E tudo que eu mais quero é continuar sendo feliz ao lado dele pelo resto de nossas vidas (ou da dele).

Não pode ser amor, simplesmente?

(Agora, voltamos com a nossa programação normal!)

11 comentários:

  1. Nossa Eve! Adorei seu desabafo. Faz bem, eim. Fiquei tentada a escrever sobre essa coisa louca de "atender as expectativas" dos entao, outros. Triste! Se pode ser simplesmente amor? Pode e sempre é assim, SIMPLES. Mas as vezes o simples é difícil, pq tras na forma sua complexidade! Bjs

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  2. A gente não consegue entrar na cabeça dos outros, né? Você mostra o que quer e o que sente com o mais importante, suas atitudes. O resto, bela, é o resto. Uma hora a ficha cai pras outras pessoas. Até lá, é chato, dói às vezes mais, às vezes menos, mas mais dolorido seria você satisfazer a vontade e os princípios dos outros e não os seus. Você é feliz, seu marido é feliz, isso é o que importa.
    bjk

    Mônica

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  3. Ah Eve, o mais importante é você saber o que sente, e o que ele sente por você. Infelizmente as pessoas ainda tem muito preconceito...

    Comigo o preconceito foi por causa da separação, que com o tempo vc acaba se acostumando. Engraçado que ninguem pergunta o que faz a gente feliz, só critica o que a gente faz...

    Bom desabafar né,...


    Beijos e fica em paz!

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  4. Eve, desabafar faz um bem danado, lava a alma da gente. Agora nao de muita importancia para o que as outras pessoas pensam ou dizem. Só a gente sabe o que passa dentro do coracao. Agora nao encontro outra palavra para explicar uma mulher ter largado a sua vida, vindo com o marido para um pais tao diferente, encarando tantas mudancas e dificuldade, que nao seja amor. Agora se eles nao conseguem enxergar isso, o problema nao está no seu sentimento, mas dentro deles, né?
    Beijos e toda felicidade e amor do mundo para esse casal tao lindo!

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  5. Eve,
    Com o tempo aprendemos que quem é responsável pela nossa felicidade somos nós mesmos (eu aprendi errando, caindo e levantando, mas aprendi).
    Não queira que os outros entendam, aceitem, torçam, compartilhem. Acredite, é muito comum esta "sabotagem" por parte daqueles que muito amamos, que são tão próximos. Muitas vezes tentam por em nós culpas que não carregamos, pesares que não sentimos. Não é porque não nos amam, nem nos entendem, mas pq não entendem de vida, e viver é assumir os riscos e as alegrias de tudo.
    Sei que estás ao lado do homem que ama e que vcs se escolheram. Viva isto plenamente. Conquiste este amor diariamente como vcs já fazem, sejam um para o outro preservando a individualidade de vcs e fortalecendo-se sempre. No fim das contas, love is all we need. (para cada um que torce contra, tenha certeza, uns três estão torcendo à favor, bingo, ganhamos! rs)
    Bjs!!!!

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  6. vc poderia estar falando da minha familia... que também é do interior... de um fim de mundo de Sao Paulo... no meu caso o "problema" foi eu ir morar com um cara (qualquer) sem me casar e com 30 anos completados ainda nao ter filhos! Cruzes!

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  7. Eu ainda acho que é por interesse.
    Pelo visto ou por dinheiro ou só porque ele é bom de cama.

    Ai, que absurdo. O mundo é um troço muito bizarro mesmo.

    Be happy, sweetheart. Let it be.
    ;)

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  8. Querida: dói, é isso, e continuará doendo para sempre, todo dia. Falo por experiencia própria em mil outros casos.
    Mas a questao é que quem vive sua vida é vc, e quem tem que estar feliz com suas decisoes e opcoes é vc. Ninguém viverá sua vida por vc.
    Eu vivo refletindo sobre isso e continuo na mesma: eu vivo minha vida e o resto, é resto. Lembre-se sempre do Exupery (do Pequeno Príncipe): "o essencial é invisível aos olhos, só se ve bem com o coracao".
    Beijo nos 2,
    Sandra

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  9. é legal o seu desabafo e pra mim. é pensar o que me acontece e os medos que me cercam... pois tb vivo algo parecido, mas eu estou no brasil e ainda me falta coragem para ir... contudo, sei que não mudarei a cabeça daqueles que estao ali tão proximo e que me conhece...
    mas parabens!!!! e continue vivendo o seu amor..isso faz a diferença...
    analice silva,

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  10. Eve, se você é uma das vítimas do tráfico humano de mulheres (oi?) manda um sinal! escreva ROSEBUD no seu próximo post. E o Batman vai te resgatar das mãos desse monstro alemão :P

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  11. Era esse o post que eu estava procurando. Sabia que ia encontrar em algum lugar.
    E, antes de comentar o assunto, mais uma coisa que temos em comum: somos baianas.

    Eve, é triste saber que as pessoas não compreendem de amor, que para elas as apareciam continuarão a ditar a realidade. Mas sabe o que é bonito? Ver que vc é feliz, que é amada, que tem ao seu lado um homem único. E que se dane o mundo.

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