segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sou dessas

- que acessa sites de compras e seleciona as roupas e acessórios que ela nunca vai comprar, porque não tem grana pra isso. Mas, fica se imaginando e esperando que um dia tenha.
- que vê a nova campanha da Marc O'Polo e suspira por todos os poros. Por que, né? O negócio dela é os "maduros".
- que quer soltar fogos porque as aulas em Berlin começaram hoje. O marido, que é professor, volta a trabalhar, e os enteados voltam pra escola. Por uma semana, ela terá, durante o dia, a casa só pra ela.
- que já pensou em mestrado, já fez uma Weiterbildung, e agora vai começar outra, mais longa, mais complexa e mais difícil. Mas, não está nem aí, porque o que ela quer mesmo é se sentir viva novamente. Começa dia 14 e espera ter histórias pra contar.
- que além de fazer tandem com dois alemães, ainda arrumou um britânico pra ver se perde a trava do inglês finalmente. E fica morrendo de inveja do quanto ele sabe sobre o Brasil, se perguntando aonde foram parar as aulas de história que teve na escola. Elas existiram mesmo?
- que fica programando viagens (Holanda, Bélgica...) na expectativa de arrumar um emprego que pague as passagens, porque estada ela já tem. Né? Né? Né?
- que fica olhando para o material de estudos para transferir a carteira de motorista (ela tem a brasileira) e bate a maior preguiça porque ela não vê sentido em ter carro na Alemanha, ainda mais em Berlin. Mas, marido quer e ela gostaria de fazer esse agrado pra dividirem os trechos em viagens.
- que nessa onda de calor, ao invés de sair de casa pra curtir, se tranca e não sai nem por reza. Porque, além do calor ser muito, ela não pode tomar sol. A vida, essa safadinha!
- que vai pro médico e mente, dizendo que não está sentindo dor e o médico olha pra cara dela e diz: eu sei que está doendo. E ri, porque só tem isso pra fazer mesmo.
- que está, aos poucos, taking her life back!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Pensativa...

Outro dia, na estação do metrô (de novo...), tinha um senhor muito bêbado. Os bombeiros tentavam convencê-lo a ir com eles, mas ele não queria. Não entendi muito bem, mas, aparetemente, os bombeiros insistiram o quanto podiam e depois desistiram, o deixando lá. Não dá pra forçar a ajuda, né?

Eu não me senti à vontade ficando perto desse senhor, porque parecia que a qualquer momento ele ficaria de estômago vazio, se é que vocês entendem. Ao meu lado tinha um cara. Eu olhei pra ele e sorri. Eu não queria que ele pensasse que estava me afastando por conta dele, mas sim por conta do bêbado.

Só que o meu sorriso abriu uma porta de comunicação. Entramos no metrô e o cara sentou perto de mim, me procurava com o olhar. Eu me senti incomodada. Eu não percebia o que estava acontecendo. Desci na minha estação de casa e ele desceu também. Ele andou ao meu lado e falou comigo.

- English?
- A little bit. German also.
- I English, Italian and Arabic.
- Oh!

E segui. Ele seguiu ao meu lado.

Sai da estação. Acelerei o passo. Dobrei na esquina da minha casa e ele ficou lá parado, com ar de perdido.

Só quando estava abrindo a porta do prédio que entendi o que estava acontecendo. Ele precisava de ajuda. Pelas línguas que ele dizia falar, no mínimo, alguém que atravessou o mediterrâneo, ficou perdido na fronteira da Itália e veio parar num "campo" de asilados por aqui. E eu, com a minha incapacidade intelectual de mudar a língua do meu cérebro de forma automática, não fui capaz de entender o que ele queria, não fui capaz de perguntar: "Do you need any help?"

Eu ainda voltei, procurei e ele não estava mais lá. Por algumas horas, senti-me a pior pessoa do mundo.

Já faz mais de dois meses e eu continuo me sentindo assim. Espero mesmo que ele tenha encontrado alguém melhor no caminho dele.

sábado, 27 de julho de 2013

Um tropeço

Em Berlin, é comum estar andando pelas ruas mais centrais da cidade e se deparar com as conhecidas "Stolpersteine" (pedras em que se tropeça) que, na verdade, não são pedras, mas placas indicativas que informam que naquele determinado prédio morava alguém que foi, durante a guerra, deportado e morto. Maioria, claro, judeus.

Eu sempre olho com curiosidade para essas "pedras". Não foi diferente quando passei por uma com o meu primeiro nome. Primeira vez que vi o meu nome correto, exatamente da forma como assino. Tirei uma foto com o celular e fui pra casa.

Esqueci a foto. Depois, lembrei que minha prima gosta de história e mandei a foto pra ela, com a mesma introdução que iniciei esse texto. Só aí olhei mais atentamente para a foto: eu havia tirado a foto dos nomes de uma família. Pai, mãe e filha. E percebi que a minha chará foi deportada e morreu no campo de concentração de Auschwitz quando tinha apenas 7 anos.

Meu tropeço do dia foi na história dessa menina. Foi numa história que podia ter sido a minha. A sua. A nossa.


As marcas ainda estão lá para homenagear, para não esquecer.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Ramadã e a Tapioca

Na sexta-feira, convidei ladies para a minha casa, três brasileiras e uma alemã. A promessa era que seria uma tarde de chá e café, que foram devidamente substituídos por champagne e suco porque estava calor e tapioca (que na Bahia, chama-se beiju também). Dondocas!

Fofa 1 e Fofa 2 (eu só conheço gente fofa, tá?) chegaram quase que ao mesmo instante e fomos para a cozinha preparar as tapiocas. Quer dizer, a Fofa 1 foi, porque cozinha e Eve não combinam. Olhem o nível da exploração da amizade.

Prepara a massa, coloca a panela no fogão, acende o fogo e...
"Esse fogo está muito fraquinho, não?"
"É......"
"Gente, eu acho que estamos sem gás!!!" (meu fogão é a gás)

E meu mundo caiu! A gente estava sem gás pra fazer as benditas e desejadas tapiocas!! Eu estava sendenta de vontade! Só tinha tomado café da manhã para aproveitar e, de repente, descubro que não tinha gás!

Famintas, depois que as outras chegaram, atacamos os biscoitinhos que tínhamos e ficamos de bate-papo. Até que eu lembrei de uma máquina de fazer Waffles que temos. Foi o que salvou a tarde. Máquina na tomada, massa sendo preparada e a gente disfarçando a frustração de não termos as tapiocas pra comer.

Mas, Eve, o que tem o Ramadã a ver com tudo isso?? Explico:

Toca a campanhia. Era a vizinha do meu andar perguntando se também estávamos sem gás. Disse que sim. Ela fala: "Minha mãe convidou a família e agora não tem como cozinhar." Eu: "E eu convidei amigas e estou com o mesmo problema!". Rimos. Ela pergunta se tinha como entrar em contato com a empresa. Desço pra pegar o número que fica no mural do prédio. Volto e ela já está ligando e me avisa que eles iam demorar mais um pouco para reestabelecer a ordem. O que não foi novidade pra mim. Essas coisas, quando acontecem, demoram horas apenas.

Volto para as "minhas" meninas, eram 17h por aí, me dou conta que é Ramadã, período em que os muçulmanos jejuam durante o dia e só podem comer com o pôr do sol. Aí bateu o desespero: gente, eles ficam o dia todo sem comer, as famílias se reúnem à noite nas casas pra "bater aquele prato" e estão sem gás? Tadinhos...

Por sorte, às 18h, quando fui conferir novamente, o gás já estava de volta aos devidos canos do prédio. Nós ficamos sem as tapiocas, mas a vizinha libanesa aposto que fez a festa dela.

Da próxima, antes de fazer essas promessas, compro um fogão elétrico!

sábado, 20 de julho de 2013

Como testar um coração

Veja a janelinha do skype da pessoa subindo ali no cantinho.
Clique e abra o bate-papo.
Escreva: "oi amor da minha vida"
Aguarde.
Leia a resposta: "oi"
Aguarde.
Leia a frase seguinte: "tem certeza que não mandou pra janela errada?"
Responda: "tenho."
Aguarde.
Levante, vá até a sala ao lado, abra a porta e olhe para a cara do seu marido.
Diga: "não, meu amor, eu não errei a janela."
Olhe bem nos olhos dele e dê risada.
Por míseros dois segundos, ele bem pensou que o "erro" aconteceu.
Até porque, tem anos que você não vê a necessidade de falar com ele por skype, porque ele está sempre ao alcance.

Vocês riem.
Saia da sala e volte para onde estava.
Repita o processo.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Está falando comigo?

Aí que a pessoa vai numa exposição de fotos com marido e fica lá, perdida entre tantas fotos interessantes e os textos que as acompanhavam.

Aí que eles não estavam lá sozinhos, né?

Aí que eu adoro pagar um mico de vez em sempre.

Estava vendo uma fotos quando falo em português:
- Olha só os detalhes dessa foto. Você reparou? Hein? Hein?

*Silêncio*

Olho para o lado e não era o marido que estava ali, mas um homem "aleatório" que me olhava com cara de interrogação. E eu, em alemão:
- Oh, me desculpe, eu pensei que fosse meu marido.

Sorri e saí correndo atrás do marido. Cheguei meio esbaforida perto dele, que, claro, me pergunta o que tinha acontecido.
Eu, mais vermelha que tudo:

- Ah, eu falei com aquele cara pensando que era você.

Obviamente, o cara ainda olhava pra mim e sorria. Eu só queria arrumar um buraco e esconder a cara. Se eu falo com ele em alemão, ia bem pensar que eu tava tentando puxar conversa.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Verão, seu lindo, resolva sua vida!

Né? Porque se alguém perguntar como está sendo o verão aqui, vou responder: "Foi ótimo! Caiu numa quarta e numa quinta respectivamente."

Pois, únicos dias que os termômetros marcaram mais de 30 graus em Berlin foi a duas semanas atrás.

Mas, né, isso são detalhes tão pequenos de nós dois, ops, do verão. Porque bom mesmo é quando, depois de uma semana chuvosa, o céu abre, o sol aparece e a temperatura está gostosa. Parace que eu estou reclamando, só que a verdade mesmo é que eu adoro quando as temperaturas estão entre 22 e 28 graus. Chegou nos 30 e eu já começo a me desesperar. Ultrapassou 30, começo a passar mal. Me chamem de fresca. Alemanha não foi feita para ondas de calor. Acreditem. :)

Voltando à situação que estou desde o início do texto tentando descrever... Pois bem. Depois da onda de calor que durou dois dias e chegou a 38 graus, as temperaturas baixaram até os 13 graus nos dias seguintes e choveu chateosamente. Verdade. Essa semana é que parece que vai esquentar de novo. Só que não. Explico.

Na segunda-feira resolvemos dar uma voltinha pela cidade e aproveitar um Biergarten. Já eram umas 21h quando queríamos voltar pra casa, mas antes, parar num café pra beber algo e curtir o "tempo" que nos restava. Dobrávamos a esquina de uma rua, quando marido olhou para o céu e disse: "Melhor voltarmos pra casa agora..."

Acompanho a visão dele e o que vejo é um céu com nuvens escuras e carregadas, além de relâmpagos."Opa, bom mesmo!"

Voltamos para casa, entramos, fechamos a porta, nos aconchegamos e CABUMMMM!!!! Uma tempestade, com direito a raios caindo na torre da Alexanderplatz, uma ventania e eu assistindo tudo da janela. :)

Agora, espero que a temperatura suba um tiquinho nos próximos dias e o sol apareça para eu poder tomar um solzinho, porque, povo, o negócio aqui tá branco!