quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Aprender a pedir

O pessoal do curso saiu um dia para beber e conversar. Eu não fui porque estava gripada na semana e porque também não aguentaria beber o que esse povo bebe (uma dose e eu já estou bêbada).

Eles me contaram que tomaram muito vinho e sempre pediam outra garrafa. O garçom levava sempre um vinho diferente.

Na sexta garrafa, eles perceberam algo errado e perguntaram porque sempre outra garrafa diferente (outro tipo, outro sabor...). Quando o garçom responde:

- Porque vocês pedem outra e não mais uma.

Coisas da língua.

Apideiti: Em alemão, andere (outro/a) quer dizer "outra coisa". Se você quer a mesma coisa mais uma vez, tem que dizer noch einer (mais uma)

Uma canção medieval

Ontem, no curso, recebi um texto alemão escrito na idade média. O compositor, Walther von der Vogelweide, viveu entre 1170 e 1230, aproximadamente.

O texto foi escrito num tipo de alemão antigo. Afinal toda língua muda com o tempo, ou vai dizer que vocês continuam chamando o povo de Vossa Mercê? rs

Além do texto ser lindo e ter sido narrado por uma voz masculina maravilhosa, a mensagem do texto tem tudo a ver também com o que escrevi ontem. Ou não, vai depender do ponto de vista de cada um.

Abaixo transcrevo o texto original, o texto atualizado e a minha tradução. (Para quem entende alemão: se alguém tiver uma ideia de tradução melhor, grita, viu?) Consegui um áudio do texto, mas não foi a que eu escutei no curso. Infelizmente, não consegui anexar o áudio aqui, mas clicando neste link e dando "play" no arquivo 11, vocês conseguem ouvir a música. (Isabela, lembrei de você)

No alemão antigo:
Owê war sint verswunden alliu mîniu jâr!
ist mir mîn leben getroumet, oder ist ez wâr?
daz ich je wânde ez wære, was daz allez iht?
dar nâch hân ich geslâfen und enweiz es niht.
nû bin ich erwachet, und ist mir unbekant
daz mir hie vor was kündic als mîn ander hant.
liut unde lant, dârinne ich von kinde bin erzogen,
die sint mir worden vremde rehte als ez sî gelogen.
die mîne gespilen wâren, die sint træge unt alt.
daz velt ist unbereitet, verhouwen ist der walt:
wan daz daz wazzer vliuzet als ez wîlent vlôz,
vür wâr mîn ungelücke wande ich wurde grôz.
mich grüezet maneger trâge, der mich bekande ê wol.
diu werlt ist allenthalben ungenâden vol.
als ich gedenke an manegen vil wünneclîchen tac,
die mir sint gar entvallen als in daz mer ein slac,
iemer mêre ouwê.

Alemão de hoje:
O weh, wohin sind alle meine Jahre entschwunden?
Habe ich mein Leben nur geträumt, oder ist es wirklich?
Was ich immer glaubte, daß es sei - war das wirklich etwas?
Demnach habe ich geschlafen und weiß es nicht.
Jetzt bin ich erwacht, und ich kenne nicht mehr,
was mir zuvor bekannt war wie eine meiner Hände.
Leute und Land, wo ich von Kind an aufgezogen worden bin,
die sind mir fremd geworden, genau so, als wäre alles erlogen.
Die meine Gespielen waren, die sind jetzt träge und alt.
Felder sind bebaut, der Wald ist gerodet:
Wenn nicht die Gewässer wie früher fließen würden,
fürwahr, dann glaubte ich, daß mein Unglück groß wäre.
Viele grüßen mich kaum mehr, die mich früher gut gekannt haben.
Die Welt ist überall voller Undank.
Wenn ich an die vielen herrlichen Tage denke,
die mir vergangen sind wie ein Schlag ins Wasser -
immerdar o weh!

Tradução:
Oh dor, para onde desapareceram todos os meus anos?
Minha vida foi só sonhos ou foi real?
O que sempre acreditei que era, realmente sempre existiu?
Estive dormindo e não sei.
Agora que estou acordado, não reconheço mais nada.
Antes, conhecia como uma das minhas mãos.
Pessoas e terra, onde eu, quando criança, fui criado
Tornaram-se estranhos para mim, exatamente como se fossem mentiras.
Os que eram meus companheiros, hoje são lentos e velhos.
Campos foram urbanizados, florestas devastadas.
Se nem as águas fluem como antes
De verdade, acredito que minha infelicidade seria grande
Muitos não me cumprimentam mais, eles que eram antes bons conhecidos.
O mundo, em todos os lugares, é cheio de ingratidão
Quando penso em muitos belos dias
que passaram por mim superficialmente -
para sempre, oh dor.

Alemão pode ser uma língua muito bonita. Perguntem a Goethe. ;)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quem mais?

Quando me mudei pra cá, quase toda semana enviava e-mails para os amigos contando o que andava acontecendo. Mandava para umas 20 pessoas e só 2 ou 3 respondiam. Como as respostas eram escassas e, muitas vezes, vazias, fui parando de enviar os e-mails. Agora só envio pontualmente para um ou para outro, principalmente, nos aniversários (quando eu lembro, né?).

Daí que outro dia mandei e-mail para duas de minhas melhores amigas, que me conhecem desde o tempo do colégio e só uma delas me respondeu. Dentre outras coisas, dizia que eu não estava acompanhando a vida dela, que não sabia o que estava acontecendo e outros blá, blá, blás.

A pessoa recebe um e-mail meu perguntando como está a vida e responde desse jeito. A pessoa não me manda um e-mail espontaneamente de jeito nenhum. Eu é que tenho que entrar em contato. Eu é que tenho que dizer que aqui está tudo bem, porque ninguém pergunta.

A mesma coisa acontece com meus pais. Outro dia tentei ligar pra eles e a ligação estava ruim. Eu os ouvia, mas eles não. Eles sabiam que era eu, e eles não retornaram a ligação. E quando, enfim, consegui falar com eles no outro dia, disseram que da próxima vez que não conseguisse ligar, era para EU ligar para o vizinho (que também é meu tio) e que ficam morrendo de saudades quando eu não ligo. Ora, se eu não os acho em casa ou não consigo completar uma ligação e eles estão com saudades, porque eles não tentam ligar para mim? Em todo esse tempo, só fizeram isso uma vez e exigem que eu ligue todo final de semana.

Eu tenho um outro blog destinado só à família. Fiz, principalmente, pensando na minha mãe, porque ela tem problemas de audição, não me escuta direito ao telefone e queria deixá-la mais perto da minha vida, coloco fotos, conto o dia-a-dia. O que faria se estivesse por lá. Ela não tem net em casa, mas meus tios têm. E tem lan house também na cidade. Aí eu pergunto se ela está acessando o blog e ela diz que não, que está sem tempo e começa a chorar as pitangas. Mas, no final da ligação, também chora a saudade dela. Eu escrevo por lá uma vez por semana! Uma vez por semana. Vocês, que não são a minha mãe, me leem todo dia. Ponto.

Uns dois tios meus, de vez em quando, mandam e-mail para mim. Ou criticando alguma coisa que escrevi no blog com um tom ácido, ou me pedindo para pesquisar alguma coisa por aqui.

Conversando com marido sobre essas posturas, chegamos a uma conclusão (Pausa. Marido sabe, porque ele já passou por essa mesma situação 15 anos atrás quando mudou para o Brasil. Fim da Pausa):

Eu incomodo.

Porque eu que fui embora.
Porque eu fiz com que eles percebessem o quanto é "relativamente" fácil sair da zona de conforto, mudar de vida.
Porque eu, provavelmente, fiz uma coisa que a maioria tem vontade de fazer: recomeçar a vida de qualquer ponto, de novo e de novo.
Porque eu fui capaz de enfrentar a minha vida, de largar "tudo" e vir para o outro lado do oceano, sem qualquer segurança.
Porque, com a minha postura, eu mostrei para muitos deles como suas vidas são medíocres (de mediana, viu?).

Eles se orgulham de mim. Mas, sentem raiva, uma certa inveja e, por mágoa, acham que sou eu que devo alguma coisa para eles. Fui eu quem partiu o coração deles, sou eu que sou obrigada a remendar.

E eu vou precisar conviver com isso...

Quem de vocês já passou pela mesma situação?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Nem Freud explica essa

Apesar do moço aí ser austríaco (informação desnecessária porque austríaco não é alemão, vai gritar meu marido), provavelmente, quando ele disse que mulheres tinham inveja dos homens (foi ele que disse essa mentira, né?), um certo hábito ainda não existia em terras germânicas.

Quando se fala nessa "inveja", a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas é: porque homens fazem xixi em pé.

Rá! A teoria de Freud cai por terra. Ou os homens alemães que têm inveja das mulheres.

Porque alemão, meus caros, faz xixi sentado. É isso aí mesmo que você leu.

E eu dou graças a Deus por isso. Pois, em festas ou reuniões de amigos no meu apartamento, meu banheiro não fica parecendo um de rodoviária. Ninguém faz xixi pra fora do vaso! (Atenção! Meu blog não é uma democracia, comentário masculino defendendo o direito de fazer xixi em pé e justificando "pequenos" acidentes não serão aceitos. Sim, eu sou tirana.)

Não me perguntem porquê, pois não sei explicar. Nem Freud.

Deve ser por isso que "mundo" aqui é feminino: Die Welt. =P

P.S. Aliás, no blog da Billy (Vocês não sabiam que é esse o nome dela, né? Eu seeeeei.) tem a explicação masculina.

domingo, 3 de outubro de 2010

Em crise com o curso

Eu tenho duas professoras no curso agora.

Uma é de segunda e terça e a outra, de quarta a sexta. Acontece que eu nunca gostei da didática da primeira, mas aguentava porque eu tinha o professor. Aí vem a professora fofa e nos trata como se fóssemos crianças.

Se eu estivesse no A1 ia adorar ter uma professora fofa. Mas, estou no B2 e tenho uma prova de certificado pra fazer em menos de 3 semanas. Eu preciso praticar, trabalhar pesado e não ficar discutindo historinhas durante as aulas.

Já aprendemos 90% da gramática até aqui. Alemão é só repetição agora e muito exercício, pois é com os exercícios que nos deparamos com casos novos, com as execeções, com as situações do cotidiano etc.

E nada.

Já estou sem pique pra ir para o curso. Fico sem concentração durante a aula, imaginando o quanto poderia estar aproveitando o tempo de outra forma - estudando em casa, por exemplo. Porque não está me acrescentando em nada. E assim, não tem motivação certa. Pelo menos, por enquanto.

Pedi à professora para trabalharmos mais gramática e praticarmos os exercícios da prova. Vamos ver se essa semana muda, antes que eu desista de acordar cedo e sair neste frio.

Estressei! Pronto, falei.

Aviso rápido: o blogger está dando pau (ui!) e não consigo postar comentários em todos os blogs que eu queria, como o da Mariana, Gisley e Deby. Sorry!

sábado, 2 de outubro de 2010

Invejinha básica

Essa situação já esteve no twitter dias atrás, mas deu vontade de repetir aqui.

Como lidar com o ego quando você escuta o seguinte:
- Eu tenho que lidar com muitas línguas durante o meu dia. Com meu filho, eu falo francês, com a au pair, italiano. Meu marido é americano, por isso conversamos em inglês e eu também sei falar espanhol.

Sendo que a pessoa disse tudo isso em alemão.

E eu? Bom, eu fico com o meu "purtugueis mau dizido", meu portunhol caquético e meu ingrês sem-vergonha... O alemão? Ah, alemão só o meu marido mesmo.

Chupa essa manga!

P.S. A moça é franco-italiana. Eu, nordestina. =P

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O perigo de uma história única

O que acontece quando você acredita apenas em uma história.
O que acontece quando tudo o que você sabe sobre um povo, uma cultura e um país vem de apenas um lado.
A escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre isso. Pois é, ou você acreditou na história única de que na Nigéria não há livros, sequer escritores?

Para refletirmos:
(Selecione a legenda do vídeo em "View subtitles")

Kibei do Danosse